É no trabalho que encontro o melhor de mim mesmo. É onde estou sempre em contato com meu centro, com o que eu sou e com o desejo sincero de fazer alguma coisa para ajudar. Minha alma é de artista, é mística e estudo com a curiosidade de um cientista. Hoje realizo o desejo de contar essa história, que é a história da minha vida a partir dos 21 anos, quando me tornei Fisioterapeuta, e como minhas experiências pessoais influenciaram o meu olhar e o meu caminhar profissional. Meu trabalho tem uma forte influência intuitiva. Cresci tendo experiências místicas, podendo me classificar como uma pessoa sensitiva, que a partir de um determinado momento, percebi que o conhecimento de mim mesma se fundia ao conhecimento científico. Esse trabalho é um relato para mostrar o resultado dessa fusão, essa “colcha de retalhos” que vem se construindo até hoje.
Há uma estória surfi* muito interessante, que fala sobre uma princesa que sofria vários naufrágios a caminho de um reino distante. Cada momento em que era resgatada por um povo, aprendia um determinado ofício junto a ele. Quando, finalmente, precisou cumprir uma tarefa para ser digna daquele reino, descobriu que tudo o que aprendeu ao longo do caminho, era justamente o que precisava para cumpri-la. Como se fosse uma “colcha de retalhos”, costurando as informações e as experiências.
Nossas dores contam histórias de uma vida inteira e a compreensão que temos delas, juntamente com a atitude que tomamos em relação a elas, muda tudo.
T. Bertherah (1), refere muito bem isso em seu livro, O CORPO TEM SUAS RAZÕES, quando diz que o nosso corpo somos nós. O nosso modo de viver o corpo é a base do nosso modo de viver o mundo. Você vê o mundo à sua própria imagem. Mas se a imagem é fragmentada, confusa, se o próprio corpo está minado de zonas mortas onde toda a sensação foi reprimida, tudo não vai passar de um sonho.
Compreender isso foi uma verdadeira revelação. Eu havia encontrado a estrada que me “traria de volta pra casa”. Era como estar no lugar certo, na hora certa. Alguém que me disse algo como: “-Conhece a ti mesmo!” E ainda dizia como: É só através da atividade que nossas percepções sensoriais podem desenvolver-se.
* O sufismo é uma filosofia de autoconhecimento e contato com o divino através de práticas meditativas, reclusão, danças, poesia e música. Os sufis acreditam que Deus é amoroso e o contato com Ele pode ser alcançado pelos homens através de uma união mística, independente da religião.
Pratiquei os exercícios propostos por ela por um longo período, até que fizessem sentido fisicamente cada palavra.
Meu corpo mudou, minha percepção mudou, minha visão mudou, e profissionalmente isso ficou bem evidente.
Nessa ocasião, eu trabalhava com crianças com paralisia cerebral e usava o método Bobath (2), conhecido por estimular a consciência corporal como forma de tratamento. Segundo B. Bobath, a aprendizagem do movimento voluntário depende da própria execução do movimento. Isto porque, só assim se poderá senti-lo. Neste método, utilizamos manobras corporais, facilitando por “pontos chaves”, de modo que o cérebro “sinta” e reconheça o movimento como realizado espontaneamente.
A primeira vez que experimentei profissionalmente a aplicação dos exercícios propostos por T. Bertherah foi em uma criança de doze anos que apresentava uma forte rigidez no corpo. Os seus pés eram tão cavos( elevação excessiva do arco longitudinal do pé), que impossibilitavam o equilíbrio de pé. Não havia indícios de problemas neurológicos, então suspeitei que eram de origem emocional.
“Os pontos chaves de Bobath correspondem às partes do corpo, geralmente proximais, onde o tônus anormal pode ser inibido e os movimentos normais facilitados.”
À princípio pensei que poderia dar-lhe uma atenção especial, inspirar-lhe confiança para que aceitasse fazer alguns exercícios de relaxamento. Isto foi sendo conquistado aos poucos, e a primeira grande revelação aconteceu alguns dias depois, através da fala, e aqui é importante frisar, que até então, pensávamos que ele era portador de algum tipo de mutismo. Estimulei-o a falar um pouco de si, de seus familiares e da sua rotina. Disse-me que era constantemente ridicularizado por não se equilibrar direito, que sofria discriminação afetiva entre os irmãos e que seu maior sonho era jogar futebol. Enquanto isso, a nossa relação crescia e valorizava-se. Um dia recebemos a visita inesperada de sua mãe, que nunca havia comparecido a clínica e, em tom indignado, disse-me que desde que o menino começou a fazer a fisioterapia comigo, não era mais o mesmo. Solicitada a se explicar melhor, falou-me que ele não mais se submetia à sua autoridade, que se rebelara contra a discriminação em casa e que queria jogar futebol de qualquer jeito. Continuando a pesquisa a respeito das causas do enrijecimento do corpo dele, revelou-me que ele não era seu filho legítimo,e que tinha sido obrigada pelo marido a adotá-lo. Que era fruto de uma relação extraconjugal do marido e que havia sido abandonado pela mãe verdadeira. Descreve-o como uma criança odiada por todos. Quanto mais ele progredia fisicamente, mais sonhava em conquistar sua independência e deixar sua família para trás. A evolução do quadro foi muito rápida. Em seis meses já se dirigia para a clínica de ônibus sozinho, jogava futebol como goleiro e sentia-se em condições de preparar-se profissionalmente para o futuro.
Depois de passar dez anos trabalhando para resgatar as consciências corporais, de crianças e adultos, perdidas por lesões cerebrais, interessei-me por resgatá-la em casos de comprometimento e embotamento da sensação por sentimentos reprimidos.
Sempre gostei muito de trabalhar com crianças e nessa época, fui indicada para trabalhar com crianças autistas numa instituição científica bastante conceituada na minha cidade (Recife). No primeiro dia, olhei para aquelas crianças, doze exatamente, em um grupo, e vi a dor contida naquele vazio de Contato. Percebi a ausência de sentido, de afeto e de energia. Pareciam presas no “túnel pré-vida”. Sabia que eles precisavam de fontes de Contato. Este Contato permite que o vazio desapareça, e cada minuto sem aquele vazio, é vivido sem dor. Tudo o que eu havia praticado em mim mesma, como a música orgânica, a massagem, os exercícios de consciência corporal, o teatro, contribuiriam para que eles vivenciassem os efeitos do Contato. Adaptei o método Bobath (2) para eles, trazendo referenciais importantes para suas reações de defesa e equilíbrio. Esta técnica, criada para trabalhar com lesões cerebrais, é possível de adaptar para crianças autistas, dentro de um conceito de leitura corporal. Adaptei também as técnicas de música orgânica(3) e massagem. Os exercícios rítmicos proporcionavam uma ligação instantânea. Traziam o referencial do “estar presente”, no “aqui” e “agora”, além de facilitar o contato(relacionamento) entre eles.
O músico Ricardo Oliveira (3), idealizador da Música Orgânica, refere em sua tese defendida no Criative M. Study-USA: Existe uma técnica utilizada por todos os povos primitivos, o “caminhar o tempo”, que é capaz de instantaneamente proporcionar o contato em grupo. O caminhar o tempo é assumir um dos ritmos orgânicos mais básicos presentes no homem, que é o caminhar. É reconhecer uma das polaridades básicas, o esquerdo/direito. Quando você caminha o tempo junto com outra(s) pessoa(s), todos juntos, as batidas dos corações, as respirações, os pensamentos, tudo se afina, porque todos os pulsos orgânicos são inter-relacionados e inter-agentes.
Por alguns minutos as crianças se sentiam vivas, e o que é melhor, compartilhadas. Em algumas semanas surgiam as manifestações de afeto. A diferenciação, um dos processos da construção da vida psíquica, era estabelecida e privilegiavam-se as relações. Funcionava como uma simples reação ao estímulo.
A criança autista também adora o contato através da massagem. No começo é difícil, podendo só permitir uma percussão suave, mas depois que você desenvolve um vínculo de confiança, ela não só permite, como gosta de fazer umas nas outras.
Meu olhar para os processos dolorosos passou por transformações à medida que ampliava minhas experiências. Percebi que as dificuldades que temos de entrar em contato com nossas dores, são capazes de alterar o fluxo de energia do nosso corpo. Qualquer alteração desse fluxo, tanto para mais quanto para menos, ou a estagnação, em qualquer região do corpo, diz sobre nosso estado de saúde e qualidade de vida, afinal, corpo é emoção. Sei também, que não há nada melhor para nos fazer sentir, do que o toque, a massagem. Foi assim que aos poucos denominei a massagem que faço de MASSAGEM CONSCIENTE.