terça-feira, 29 de março de 2011

Linguagem corporal

Apesar de não sermos Psicoterapeutas Corporais, nós Fisioterapeutas, lidamos com a dor diariamente. Dores agudas e crônicas, fruto de traumas recentes ou antigos. Se escolhermos olhar de forma mais abrangente, podemos ver que tipo de sofrimento está envolvido e expresso através de uma bursite, de uma dor de coluna, ou mesmo de doenças graves como as neurológicas e doenças mentais. Vamos lidar com a dor, em suas várias formas de expressão.
Ao longo da minha experiência profissional, pude observar que quando estamos diante de uma dor antiga, ou ainda as muito fortes, os sentidos estão como que “embotados” ou “amortecidos”, e é preciso fazer uma estimulação proprioceptiva, para que seja possível nos re-encontrar com essa dor, que tanto se quer esquecer.
Sistema proprioceptivo é a estrutura orgânica que entre outras funções, informa ao cérebro sobre o estado de cada segmento do corpo humano, sobre a relação entre cada segmento e o todo corporal. Por toda a pele, músculos e tendões, há receptores sensitivos desse sistema.
Vejamos se consigo fazê-los compreender o que é isso: Já vimos que as “zonas mortas”, onde a sensação foi reprimida, altera toda nossa imagem corporal e a nossa percepção do todo. Diante da dor, mecanismos de defesa, fisiológicos e psicológicos, são acionados na tentativa de aliviá-la. O fluxo de energia nessas regiões fica comprometido e a dor se transforma, deixando a região entorpecida, como também, o que era inicialmente uma forte contração muscular, pode inflamar, fibrosar e calcificar. Enfim, tudo pode ocorrer nesses mecanismos de defesa inconscientes, e quaisquer que sejam eles, ao serem tocados, ao serem estimulados proprioceptivamente, eles virão “à flor da pele”. É bom que venham, pois é a chance que temos de encará-los “frente-a-frente”, dentro de um novo contexto, possíveis de serem absorvidos.
Um mecanismo de defesa muito conhecido é a contração dos músculos ao sinal de perigo. Os sentidos ficam em alerta, a adrenalina atua na corrente sanguínea, deixando todo o corpo tenso, pronto para reagir. Vivendo as tantas incertezas do mundo atual, os relacionamentos difíceis etc., não é difícil adoecermos. Quando vejo uma pessoa com bursite, por exemplo, sua postura é de expectativa, ou seja, ombros elevados e rodados para dentro. O pescoço está rígido, há dor e bloqueio em toda cintura escapular. A respiração é curta e contida. Não vejo uma bursite como um problema localizado e sim, sistêmico, fruto de toda uma história que a pessoa está passando, que afeta seu corpo e sua mente. A ansiedade costuma provocar dores bastante conhecidas como enxaqueca, torcicolo, ciática e outras. Há dores que são facilmente visíveis, outras nem tanto. Às vezes são dores “gritantes”, às vezes fazemos de conta que “não estamos nem aí.” Há quem pense que dor é coisa de “maricas”. Muitos querem se livrar delas, mas há quem não saiba viver sem elas. Lidar com a dor é uma fonte inesgotável de conhecimento.
Para facilitar a compreensão sobre as manifestações emocionais da dor no corpo, proponho classificá-las de duas formas: as CIRCUNSTANCIAIS e as ESTRUTURADAS.
As dores consideradas CIRCUNSTANCIAIS são aquelas provocadas por uma situação emocional recente, expressa no corpo de forma relativamente superficial. Observamos tensões musculares que reagem ao toque com facilidade e logo são compreendidas. Já as ESTRUTURADAS, são aquelas derivadas de emoções, que por algum motivo foram reprimidas há muito tempo, transformando-se numa tensão muscular crônica, podendo acarretar deformidades posturais.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Introdução

É no trabalho que encontro o melhor de mim mesmo. É onde estou sempre em contato com meu centro, com o que eu sou e com o desejo sincero de fazer alguma coisa para ajudar. Minha alma é de artista, é mística e estudo com a curiosidade de um cientista. Hoje realizo o desejo de contar essa história, que é a história da minha vida a partir dos 21 anos, quando me tornei Fisioterapeuta, e como minhas experiências pessoais influenciaram o meu olhar e o meu caminhar profissional. Meu trabalho tem uma forte influência intuitiva. Cresci tendo experiências místicas, podendo me classificar como uma pessoa sensitiva, que a partir de um determinado momento, percebi que o conhecimento de mim mesma se fundia ao conhecimento científico. Esse trabalho é um relato para mostrar o resultado dessa fusão, essa “colcha de retalhos” que vem se construindo até hoje.
Há uma estória surfi* muito interessante, que fala sobre uma princesa que sofria vários naufrágios a caminho de um reino distante. Cada momento em que era resgatada por um povo, aprendia um determinado ofício junto a ele. Quando, finalmente, precisou cumprir uma tarefa para ser digna daquele reino, descobriu que tudo o que aprendeu ao longo do caminho, era justamente o que precisava para cumpri-la. Como se fosse uma “colcha de retalhos”, costurando as informações e as experiências.
Nossas dores contam histórias de uma vida inteira e a compreensão que temos delas, juntamente com a atitude que tomamos em relação a elas, muda tudo.
T. Bertherah (1), refere muito bem isso em seu livro, O CORPO TEM SUAS RAZÕES, quando diz que o nosso corpo somos nós. O nosso modo de viver o corpo é a base do nosso modo de viver o mundo. Você vê o mundo à sua própria imagem. Mas se a imagem é fragmentada, confusa, se o próprio corpo está minado de zonas mortas onde toda a sensação foi reprimida, tudo não vai passar de um sonho.
Compreender isso foi uma verdadeira revelação. Eu havia encontrado a estrada que me “traria de volta pra casa”. Era como estar no lugar certo, na hora certa. Alguém que me disse algo como: “-Conhece a ti mesmo!” E ainda dizia como: É só através da atividade que nossas percepções sensoriais podem desenvolver-se.
    * O sufismo é uma filosofia de autoconhecimento e contato com o divino através de práticas meditativas, reclusão, danças, poesia e música. Os sufis acreditam que Deus é amoroso e o contato com Ele pode ser alcançado pelos homens através de uma união mística, independente da religião.
  • Pratiquei os exercícios propostos por ela por um longo período, até que fizessem sentido fisicamente cada palavra.
Meu corpo mudou, minha percepção mudou, minha visão mudou, e profissionalmente isso ficou bem evidente.
Nessa ocasião, eu trabalhava com crianças com paralisia cerebral e usava o método Bobath (2), conhecido por estimular a consciência corporal como forma de tratamento. Segundo B. Bobath, a aprendizagem do movimento voluntário depende da própria execução do movimento. Isto porque, só assim se poderá senti-lo. Neste método, utilizamos manobras corporais, facilitando por “pontos chaves”, de modo que o cérebro “sinta” e reconheça o movimento como realizado espontaneamente.
A primeira vez que experimentei profissionalmente a aplicação dos exercícios propostos por T. Bertherah  foi em uma criança de doze anos que apresentava uma forte rigidez no corpo. Os seus pés eram tão cavos( elevação excessiva do arco longitudinal do pé), que impossibilitavam o equilíbrio de pé. Não havia indícios de problemas neurológicos, então suspeitei que eram de origem emocional.
Os pontos chaves de Bobath correspondem às partes do corpo, geralmente proximais, onde o tônus anormal pode ser inibido e os movimentos normais facilitados.”


À princípio pensei que poderia dar-lhe uma atenção especial, inspirar-lhe confiança para que aceitasse fazer alguns exercícios de relaxamento. Isto foi sendo conquistado aos poucos, e a primeira grande revelação aconteceu alguns dias depois, através da fala, e aqui é importante frisar, que até então, pensávamos que ele era portador de algum tipo de mutismo. Estimulei-o a falar um pouco de si, de seus familiares e da sua rotina. Disse-me que era constantemente ridicularizado por não se equilibrar direito, que sofria discriminação afetiva entre os irmãos e que seu maior sonho era jogar futebol. Enquanto isso, a nossa relação crescia e valorizava-se. Um dia recebemos a visita inesperada de sua mãe, que nunca havia comparecido a clínica e, em tom indignado, disse-me que desde que o menino começou a fazer a fisioterapia comigo, não era mais o mesmo. Solicitada a se explicar melhor, falou-me que ele não mais se submetia à sua autoridade, que se rebelara contra a discriminação em casa e que queria jogar futebol de qualquer jeito. Continuando a pesquisa a respeito das causas do enrijecimento do corpo dele, revelou-me que ele não era seu filho legítimo,e que tinha sido obrigada pelo marido a adotá-lo. Que era fruto de uma relação extraconjugal do marido e que havia sido abandonado pela mãe verdadeira. Descreve-o como uma criança odiada por todos. Quanto mais ele progredia fisicamente, mais sonhava em conquistar sua independência e deixar sua família para trás. A evolução do quadro foi muito rápida. Em seis meses já se dirigia para a clínica de ônibus sozinho, jogava futebol como goleiro e sentia-se em condições de preparar-se profissionalmente para o futuro.
Depois de passar dez anos trabalhando para resgatar as consciências corporais, de crianças e adultos, perdidas por lesões cerebrais, interessei-me por resgatá-la em casos de comprometimento e embotamento da sensação por sentimentos reprimidos.
Sempre gostei muito de trabalhar com crianças e nessa época, fui indicada para trabalhar com crianças autistas numa instituição científica bastante conceituada na minha cidade (Recife). No primeiro dia, olhei para aquelas crianças, doze exatamente, em um grupo, e vi a dor contida naquele vazio de Contato. Percebi a ausência de sentido, de afeto e de energia. Pareciam presas no “túnel pré-vida”. Sabia que eles precisavam de fontes de Contato. Este Contato permite que o vazio desapareça, e cada minuto sem aquele vazio, é vivido sem dor. Tudo o que eu havia praticado em mim mesma, como a música orgânica, a massagem, os exercícios de consciência corporal, o teatro, contribuiriam para que eles vivenciassem os efeitos do Contato. Adaptei o método Bobath (2) para eles, trazendo referenciais importantes para suas reações de defesa e equilíbrio. Esta técnica, criada para trabalhar com lesões cerebrais, é possível de adaptar para crianças autistas, dentro de um conceito de leitura corporal. Adaptei também as técnicas de música orgânica(3) e massagem. Os exercícios rítmicos proporcionavam uma ligação instantânea. Traziam o referencial do “estar presente”, no “aqui” e “agora”, além de facilitar o contato(relacionamento) entre eles.
O músico Ricardo Oliveira (3), idealizador da Música Orgânica, refere em sua tese defendida no Criative M. Study-USA: Existe uma técnica utilizada por todos os povos primitivos, o “caminhar o tempo”, que é capaz de instantaneamente proporcionar o contato em grupo. O caminhar o tempo é assumir um dos ritmos orgânicos mais básicos presentes no homem, que é o caminhar. É reconhecer uma das polaridades básicas, o esquerdo/direito. Quando você caminha o tempo junto com outra(s) pessoa(s), todos juntos, as batidas dos corações, as respirações, os pensamentos, tudo se afina, porque todos os pulsos orgânicos são inter-relacionados e inter-agentes.
Por alguns minutos as crianças se sentiam vivas, e o que é melhor, compartilhadas. Em algumas semanas surgiam as manifestações de afeto. A diferenciação, um dos processos da construção da vida psíquica, era estabelecida e privilegiavam-se as relações. Funcionava como uma simples reação ao estímulo.
A criança autista também adora o contato através da massagem. No começo é difícil, podendo só permitir uma percussão suave, mas depois que você desenvolve um vínculo de confiança, ela não só permite, como gosta de fazer umas nas outras.
Meu olhar para os processos dolorosos passou por transformações à medida que ampliava minhas experiências. Percebi que as dificuldades que temos de entrar em contato com nossas dores, são capazes de alterar o fluxo de energia do nosso corpo. Qualquer alteração desse fluxo, tanto para mais quanto para menos, ou a estagnação, em qualquer região do corpo, diz sobre nosso estado de saúde e qualidade de vida, afinal, corpo é emoção. Sei também, que não há nada melhor para nos fazer sentir, do que o toque, a massagem. Foi assim que aos poucos denominei a massagem que faço de MASSAGEM CONSCIENTE.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Música orgânica - Oficinas Básicas de Música

Hoje eu vi um vídeo de música orgânica no youtube. Eu fui da primeira turma das Oficinas Básicas de Música, criadas por Ricardo Oliveira, em Olinda PE. Quando comecei, costuma dizer que eu não cantava nem "boi, boi". Pensava que aqueles exercícios sonoros iriam facilitar o meu cantar, desfazendo minha timidez. Isto aconteceu e muito mais. Descobri um trabalho holístico fantástico, extremamente estruturante e prazeroso.É uma experiência sensitiva fortíssima. Os exercícios sonoros fazem sua energia vibrar por todo o corpo, abrindo canais bloqueados por sentimentos reprimidos, embotados, etc. O "caminhar o tempo", equilibra o nosso ritmo respiratório, cardíaco, visceral, psíquico. O "mandala musical" traz experiências sensitivas de relação consigo mesmo, com o outro e com o Todo. Nunca conheci um trabalho sensitivo como este. A música orgânica é extremamente terapêutica. Vi isto claramente quando adaptei alguns exercícios rítmicos no trabalho com crianças autistas. São também exercícios respiratórios maravilhosos,afinal, a voz é nossa respiração audível. Como fisioterapeuta estou sempre utilizando o que aprendi nas oficinas básicas de música. Recomendo este trabalho como um dos melhores entre os que considero Contatoterapia. Visite o site www.musicaorganica.com.br

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A voz que está em minhas mãos

A VOZ QUE ESTÁ EM MINHAS MÃOS

Quando eu lhe toco não há só ciência, é pura poesia, é uma troca.
É o ar que respiramos juntos no mesmo movimento, mesmo ritmo.
Em cada parte que toco sinto uma fala contida, doída, sem conseguir dizer.
Você me fala através do seu corpo e eu escuto.
Posso lhe dizer que a dor é uma ilusão, carência, assim como um homem no deserto, não mais se contenta com um copo, precisa de um Lago.
Não resista ao medo, a dor.
Troque o mecanismo de defesa, ao invés de se conter, solte o ar,
Entregue-se e quando menos esperar, o destino acontece.
No Universo tudo pulsa.
Viva com alegria.
Também não espere a grande Graça, ela nunca acontece. Descubra os pequenos prazeres da vida.
Deixe o ar entrar. Não precisa puxar. Permita e ele entra, sem nenhum esforço. O ar entra e lhe enche de saúde e harmonia. Cheio de Graça!
Sinta os pés no chão, solte os joelhos.
Você estará pronto para ir em qualquer direção.

Angela Ramos